“Courbet foi um militante destacado na Comuna de Paris”
O ex-bloquista Francisco Louçã alia a política com a arte no seu livro “Imaginação”, recentemente editado pela Bertrand, detendo-se sobre os impressionistas e o seu posicionamento sobre a Guerra franco-prussiana e a Comuna de Paris. O Objectivo publica um extracto da obra:
“O quadro de Henri Fantin-Latour Um Atelier em Batignolles retrata Manet, sentado e a pintar, e à sua volta, de pé, Renoir, Zola, Monet, entre outros. É uma representação do grupo impressionista na década da sua glória e com um escritor seu amigo, embora não estivessem todos: falta Degas, uma das figuras destacadas do movimento, e nem é incluído outro dos criadores do impressionismo (Pissarro), nem um crítico (Cézanne), nem um recém-chegado (Gauguin). O quadro foi exposto no Salão de 1870, que fechou portas nos finais de junho; um mês depois começou a Guerra Franco-Prussiana. É uma imagem de grupo num tempo que punha em questão as convicções de cada um. Conhecer essa comunidade artística e as suas tensões situa a potência deste movimento nos vendavais da sua época.
Os anos decisivos dos impressionistas, entre 1860 e meados da década de 1880, foram atravessados por uma guerra e por uma revolução. Os pintores mais velhos reagiram de modo distinto a estes acontecimentos: Millet recusava ser considerado de esquerda e condenou a Comuna de Paris, ao passo que Courbet foi um ativo promotor da ideia socialista e, em consequência, assumiu um papel de destaque na revolta que tomou o poder na cidade entre março e maio de 1871. Aceitou ser nomeado delegado para as Belas-Artes e, nos últimos dias antes da vitória das tropas versalhesas, foi encarregado de resguardar o Louvre. Teve ainda uma participação direta na condução política da cidade: foi eleito para o Conselho da Comuna por um bairro e assinou várias proclamações, determinando por exemplo a requisição dos alojamentos devolutos para albergar as pessoas cujas casas tivessem sido bombardeadas; finalmente, opôs-se à concentração de poder no Comité de Salvação Pública e demitiu-se em protesto contra essa decisão. Com a derrota, foi preso e condenado a seis meses de prisão, tendo acabado por morrer no exílio.
Ao contrário de Courbet, nenhum dos impressionistas participou na Comuna, se bem que alguns tenham tomado armas na Guerra franco-Prussiana que a antecedeu. O anarquista Pissarro e também Monet tinham-se refugiado em Inglaterra durante a guerra; Cézanne escondeu-se em casa dos pais, perto de Aix, para evitar o serviço militar; Zola foi para a Provença e Marselha. Em contrapartida, os republicanos Renoir, Manet e Degas foram convocados para a Guarda Nacional e os dois últimos fizeram parte do corpo de artiIharia que defendia Paris. Foram desmobilizados com o armistício de janeiro de 1871, mas as suas vicissitudes não terminaram aí: em abril, estava Renoir a pintar nas margens do Sena quando foi preso por militares e, suspeito de espiar as defesas da cidade, foi levado para ser fuzilado, do que se salvou por ter sido reconhecido por um amigo. Quanto a Manet, começou por se indignar contra as primeiras decisões da Comuna. No entanto, a correspondência com o irmão, que tinha ficado em Paris, levou-o a mudar de opinião. Todos sofreram com aquelas derrotas: a casa de Pissarro foi destruída por um bombardeamento prussiano, perdendo-se mais de mil quadros que colecionava; Manet entrou em depressão; e a tensão dentro do grupo agravou-se.
Em contrapartida, Gauguin e Van Gogh, que tinham 23 e 18 anos à época da Guerra Franco-Prussiana e da Comuna, demonstraram simpatia por aquela revolução condenada: o primeiro denunciou que, após os ‘acontecimentos de 1870’, se impôs o barbarismo dos ‘soldados com ódio pela sua derrota às mãos da Prússia, orgulhosos das suas ignóbeis represálias contra a Comuna’; o segundo, mais radical, explicou ao seu irmão o seu desacordo sobre a importância da insurreição popular. A discussão surgiu a respeito da Liberdade de Delacroix, um quadro sobre as barricadas de 1830. Vincent sabia que o conservador Théo tinha um ponto de vista oposto ao seu, pelo que concluiu que ´ambos permanecendo nas nossas posições, com uma certa melancolia teríamos sido inimigos diretos, opostos um ao outro, por exemplo naquela barricada, tu como um soldado do governo e eu atrás, como um revolucionário ou rebelde’.
Deste grupo de pintores, foi Manet, que era respeitado pelos outros, quem mais se empenhou em condenar a repressão que se abateu sobre os partidários da Comuna e em manifestar essa posição na sua obra. Numa litografia, provavelmente de 1871, A Barricada, representou soldados alinhados a dispararem contra o povo numa barricada; nesse ano terá feito outra litografia, A Guerra Civil, que tem em primeiro plano o corpo de um soldado morto, ao fundo uma barricada desfeita. Uns anos depois, em 1880, pintou A Evasão de Rochefort, sobre o caso então célebre de um jornalista deportado para a Nova Caledónia com os sobreviventes da Comuna e que tinha conseguido fugir num barco a remos, até ser recolhido por um navio norte-americano. Manet quis que ninguém ignorasse a sua posição”.
