Cloudistas de todos os países uni-vos
O ex-ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, apela aos “prole,tários da nuvem” por todo o mundo, esse grupo gigantesco de “servos e vassalos” para se unirem e realizarem acções colectivas contra os colossos tecnológicos, como a Amazon, Tesla e, Nvidia. Está tudo no livro “Tecno-feudalismo, ou o fim do Capitalismo”, editado recentemente pela editora Objetivamente, da Penguin Random House Grupo Editorial. É Varoufakis na versão Gene Sharp, o autor do célebre Da Ditadura à Democracia, um guia para a revolução não violenta.
O Objectivo publica um extracto da obra de Yanis Varoufakis:
“(…) imaginei uma ação global centrada num único grupo cloudalista de cada vez – começando pela Amazon. Imaginemos uma coligação internacional de sindicatos a apelar a que os trabalhadores dos armazéns da Amazon, em todo o mundo, não comparecessem ao trabalho durante um dia. Por si só, essa ação teria pouco impacto. Mas já não seria assim se uma campanha mais alargada convencesse utilizadores e clientes, um pouco por todo o mundo, a não acederem ao site da Amazon nesse único dia – recusando, nesse breve período, o seu estatuto de servos ou vassalos.
O incómodo pessoal seria ínfimo, mas o efeito cumulativo revelar-se-ia impressionante. Mesmo que fosse apenas moderadamente bem-sucedida – provocando, digamos, uma quebra de 10 por cento nas receitas habituais da Amazon, enquanto a paralisação nos armazéns afetava as entregas durante vinte e quatro horas —, tal ação poderia ser suficiente para fazer cair o preço das ações da Amazon de uma forma que nenhuma iniciativa laboral tradicional conseguiria. É assim que os proletários da nuvem e os servos da nuvem podem unir-se de forma eficaz. É o que denomino mobilização por meio da nuvem.
A mobilização por meio da nuvem tem a vantagem de romper com o modelo convencional de ação coletiva. Em vez de um sacrifício pessoal máximo para um benefício coletivo mínimo, temos agora o inverso: um sacrifício pessoal mínimo capaz de gerar substanciais benefícios coletivos e também pessoais. Esta inversão pode abrir caminho a uma coligação de servos da nuvem e proletários da nuvem que seja suficientemente forte para minar o controlo dos cloudalistas sobre milhares de milhões de pessoas.
Claro está que iniciativas como estas, dirigidas a uma ou várias grandes empresas cloudalistas, não serão suficientes.
A rebelião da nuvem que vislumbro terá de recrutar para a sua causa múltiplas e diversas franjas da população – incluindo, por exemplo, todos aqueles que perdem o sono quando recebem as faturas da água e da eletricidade. Greves de pagamento inteligentemente calculadas e dirigidas poderiam provocar quedas equivalentes no valor das ações e dos derivados das empresas privadas de serviços essenciais.
Realizadas no momento certo, estas greves pacíficas, de guerrilha, poderiam infligir sérios danos ao poder político e económico de conglomerados cujos destinos se encontram cada vez mais entrelaçados com o das finanças da nuvem. Esta rebelião poderá também conquistar apoio internacional, por exemplo, por meio de um boicote de consumidores nos Estados Unidos, dirigido a uma empresa em particular — pela exploração brutal dos trabalhadores na Nigéria ou pela destruição de reservas naturais no Congo.
Outra campanha poderia consistir em lançar um apelo internacional para identificar as empresas com os piores registos de contratos de zero horas ou de baixos salários, grandes pegadas de carbono, condições laborais precárias ou as que costumam ´reduzir o pessoal´ para aumentar o preço das ações — e depois organizar uma suspensão generalizada das contribuições para os fundos de pensões que detêm ações nessas empresas. Apenas o anúncio de que um fundo de pensões seria alvo dessa medida bastaria para provocar a queda abrupta do preço das suas ações e a fuga de investidores preocupados dos fundos de ações associados.
