Quando a Grã-Bretanha tomou o controlo do Irão
Mudam-se os tempos, mudam-se os impérios. O ataque ao Irão pelos EUA prova que este continua a ser o seu tempo, pelo menos enquanto a China permanecer como potência económica sem intenções militares com Taiwan.
Há cem anos ainda era o tempo da Europa, principalmente da Grã-Bretanha. Era então este país que ditava cartas em muitas partes do mundo.
O Irão, como explica Peter Frankopan no livro “As Rotas da Seda”, (editora Itaca, 2018) era na altura uma das zonas de influência britânicas, criando fortes resistências internas e despertando rivalidades da Rússia e da França em face do controlo pelo petróleo, uma matéria -prima que já se revelava essencial.
“Em 1919, assinou-se um acordo que instalaria conselheiros britânicos para administrar tanto o Tesouro como as forças armadas [do Irão], além de superintenderem os projectos de infraestruturas. Isto foi mal aceite na Pérsia e noutras partes. Com a Grã-Bretanha a deter uma participação maioritária na Companhia Petrolífera Anglo-Persa, os Russos e os Franceses já receavam que o controlo que ela exercia sobre a Pérsia fosse excessivo. Os subornos (ou ‘comissões’) pagos para que o acordo fosse assinado, entretanto, provocou gritos de protesto na Pérsia – também contra o próprio xá. ‘Deus condene a eterna vergonha / Aquele que traiu a terra dos Sassânidas», escreveu um conhecido poeta na altura, citando o passado longínquo e glorioso da Pérsia; «Dizei ao zeloso Artaxerxes de longos braços / Que o inimigo anexou o teu reino a Inglaterra’. Estes críticos acabavam na prisão.
O comissário dos Negócios Estrangeiros da recente União Soviética também reagiu furiosamente: a Grã-Bretanha ‘está a tentar apanhar num laço o povo persa e fazer dele um escravo’. Era vergonhoso, disse ele numa declaração, que os governantes do país o ‘tivessem vendido aos salteadores ingleses’.
A reacção em Paris não diferiu muito. Não estando preparados para a guerra por petróleo, e tendo cedido Mossul aparentemente em troca de nada, os Franceses haviam feito pressão para estabelecer os seus próprios conselheiros em Teerão para defender os seus interesses nacionais”.
