A chegada ao Brasil do futuro D. João VI: “deixe o povo vir, porque deseja ver-me”
O príncipe regente D. João, futuro D. João VI, chegou ao Brasil a 22 de janeiro de 1808, em fuga das invasões francesas, depois de dois meses de viagem desde Lisboa. O historiador brasileiro Paulo Rezzutti conta, ao pormenor, como foi recebido em Salvador da Baía no seu livro D. João VI, A História não contada, editado recentemente pela Penguin. O Objectivo publica um extracto da obra.
“A 22 de janeiro, de madrugada, o governador da Bahia, conde da Ponte, foi acordado com a informação de que a esquadra em que vinha D. João havia sido avistada por embarcações no dia anterior, por volta das 16 horas. O governador mandou colocar mais vigias para esquadrinhar o horizonte à procura dos mastros que anunciariam a chegada do príncipe regente.
A meio da manhã, foram avistadas algumas naus e, assim que se confirmou que o pavilhão real estava numa delas, o governador mandou que as baterias das fortalezas dessem as devidas salvas em honra da rainha e do príncipe que chegavam. Por volta das 18 horas, os navios da esquadra lançavam ferros na baía de Todos os Santos, depois de mais de cinquenta dias no mar.
O governador João de Saldanha da Gama, conde da Ponte, subiu prontamente a bordo da Príncipe Real para cumprimentar D. João. A primeira pergunta que o príncipe regente fez ao conde da Ponte foi: ´Não vem ninguém de terra?` O governador respondeu: ‘Senhor, não veio imediatamente toda a cidade, mesmo estando a nau de V. Alteza sobre os ferros, cumprimentar e felicitar a V. Alteza porque eu determinei que pessoa alguma aqui se aproximasse sem que eu primeiro viesse receber as ordens verbais de S. A. Real.’ D. João então respondeu: ´Deixe o povo vir como quiser, porque deseja ver-me.´ Segundo o historiador Melo Moraes, ´não faltou ninguém das diferentes classes da sociedade que não fosse beijar a mão e saudar com efusão e júbilo a S. Alteza, a S. Majestade aos príncipes e princesas a bordo das naus fundeadas´.
No dia seguinte, 23 de janeiro de 1808, às 17h30, D. João e parte da família, com exceção da rainha, desembarcaram em Salvador. O príncipe era o primeiro da sua dinastia, e de qualquer família reinante, a pisar o solo da América. A receção do povo baiano foi efusiva. O povo ovacionou-os assim que chegaram ao bairro da Ribeira, na cidade baixa, e entraram nas carruagens postas à sua disposição. O cortejo seguiu pela rua da Preguiça, de onde subiram a ladeira da Gameleira até ao largo onde estava a ser construído o futuro Teatro São João. Ali, D. João e os familiares apearam-se das carruagens para se porem debaixo do pálio que os representantes da Câmara Municipal ergueram para os levar a pé até à Sé, entre alas de soldados em continência e o repique de centenas de sinos.
No templo, uma das joias do barroco brasileiro, a família real assistiu ao Te Deum oficiado pelo arcebispo frei D. José de Santa Escolástica, em agradecimento por terem chegado a salvo ao Brasil. Mas a apreensão ainda era grande, não apenas em relação ao que havia ocorrido em Portugal após a partida da corte, mas com o que poderia ter ocorrido com a restante esquadra, incluindo a nau que levava as tias e duas das filhas de D. João.
A cidade de Salvador deve ter feito os portugueses recém-chegados lembrarem-se da Lisboa que haviam deixado para trás. A exemplo dessa cidade, a antiga capital colonial do Brasil fora construída em diversos níveis e era repleta de ladeiras. Contudo, além da língua, a semelhança parava por aí. Com aproximadamente 60 mil habitantes, Salvador tinha somente 30% da população branca, sendo o restante formado por negros e mestiços. Além disso, costumes, clima, cores, odores e a natureza exuberante nada tinham que ver com a Europa. Muitos dos produtos que a corte estava acostumada a consumir em Portugal não existiam no Brasil ou eram obtidos somente por meio de contrabando devido a proibições decretadas durante séculos à colónia sul-americana. Mas ninguém pensava nisso naquele momento, depois de cinquenta dias entre tempestades e calmarias no meio do oceano e após terem conseguido escapar dos franceses.
Após a cerimónia, todos regressaram a bordo dos navios, porque a rainha ainda não havia desembarcado. D. Maria desceria à terra no dia seguinte, às 18 horas, quando então seguiram para o Palácio do Governo, de onde o governador se mudara com a família para deixar a habitação livre a D. João, seus familiares e criados. A única exceção era a princesa D. Carlota, que, a pretexto da sua saúde, continuou a dormir no navio todas as noites até dia 28, quando desembarcou finalmente e passou a ocupar o Palácio da Relação, que se comunicava por um passadiço com o Palácio do Governo.
A cidade iluminou-se e festejou D. João por vários dias. No dia 23, por exemplo, a população pôs-se no largo do paço a cantar modinhas para o príncipe. No dia 28, o conde da Ponte ordenou que o primeiro regimento de linha fosse fazer exercícios militares no campo do Forte S. Pedro, assistidos pelo príncipe regente, juntamente com toda a família.
Podia não ser a Europa, podia não ser Portugal, mas D. João continuava a ser o príncipe também daquela terra em que havia acabado de pôr os pés, e os costumes da corte em Lisboa passaram logo a marcar o passo do outro lado do Atlântico. Os brasileiros, pela primeira vez, puderam beijar a mão de um governante que até então só sabiam que existia por meio de moedas, quadros, gravuras e de datas comemorativas como a do seu nascimento e casamento”.
