O caso Ronaldo: vamos voltar ao 24 de Abril?
As redes sociais acertaram na mouche quando fizeram de Jorge Jesus o Salgueiro Maia da seleção nacional de futebol.
A destituição de Ronaldo por Jesus equivaleu, na verdade, ao 25 de Abril e ao Programa do MFA.
Foi, como escreveu Sofia de Mello Breyner, o “dia inicial inteiro e limpo”, o primeiro dia em que Ronaldo, jogador com quase 42 anos, não jogou pela seleção.
Apeteceu cantar a velha canção da revolução, uma gaivota voava voava, somos livres, somos livres, com letra de Ermelinda Duarte.
A seleção nacional libertou-se a jogar.
Os talentos vieram ao de cima, com destaque para Gonçalo Ramos.
Muitos adeptos do futebol ligaram-se de novo à seleção porque estavam exangues da ditadura de Ronaldo.
Fartos da oligarquia futebolística que apadrinhou Ronaldo anos a fio.
Fartos do homem intocável, já velho, que jogava sempre.
Fartos do homem que não queria sair do campo.
Fartos do seu fantasma.
Hoje, como no 25 de Abril, a democracia não esteve logo garantida.
A oligarquia futebolística, comprometida com o ronaldismo, dependente financeiramente da sua marca mundial, quer Ronaldo de volta.
Jorge Jesus está refém desta oligarquia e deste sistema.
No 25 de Abril, os monopólios, os bancos, os sectores estratégicos, esteio da ditadura, também sobreviveram à revolução e quiseram tutelar o novo regime, criando uma democracia musculada assente no domínio do poder político pelo poder económico.
Na altura, foi o povo quem salvou a democracia, salvando-a contra os monopólios e mais tarde contra o PCP.
Hoje, também é o povo quem pode impedir o regresso da ditadura de Ronaldo, iluminados pelos comentadores desportivos, que quase em uníssono, se revoltaram contra o regresso ao 24 de Abril.
São eles que também quem podem salvar Jesus.
