Humberto Delgado sobre Salazar: “fedor a miasma, bolor, botas e ceroulas de atilhos”
As eleições presidenciais de 8 de junho de 1958 tinham sido há pouco mais de seis meses e o general Humberto Delgado podia-as ter ganho se Portugal fosse uma democracia, em vez de viciadas para o candidato eleito do regime ditatorial de Salazar, Américo Tomás.
Em janeiro de 1959, Delgado, a sofrer represálias do governo na sua carreira militar, ele que na campanha das presidenciais declarara que se fosse eleito demitia Salazar, pediu exílio ao Brasil e foi já neste país que escreveu um artigo demolidor contra Salazar.
O Objectivo recorda-o, publicado no livro A Tirania Portuguesa, de Iva Delgado, filha de Humberto Delgado e Carlos Pacheco, editado em 1995 pela Dom Quixote, por sua vez reproduzindo um artigo publicado por Delgado em 17/07/1959 no Diário de Notícias do Rio de Janeiro, intitulado A obra de desgaste de Salazar.
“De longe vem o meu contacto com o ditador, em missões de serviço como oficial aviador e do corpo do Estado-Maior. Conheço-o bem. Negar-lhe inteligência, no sentido corrente da capacidade analítica e encadeamento de raciocínio, é faltar à verdade.
É-o também negar-lhe capacidade administrativa, no sentido de estudar os fatores em presença, decidir, fazer cumprir, e fiscalizar. ‘O seu a seu dono’…
Onde este indivíduo falha como condutor de povos, função de que se apropriou e não larga senão pela força, é, em primeiro lugar, na excessiva e mascarada vaidade que, superalimentada pela subserviência dos cortesãos e pela censura à imprensa o transformou numa espécie de cruel manipanso, ídolo ácido das civilizações em estado tribal.
Em segundo lugar, na aparente incongruência, mas atributo de todo o ditador e mais neste, de apaixonar-se pelos homens, do ponto de vista do serviço, conservando-os exageradamente, contra a opinião pública e os interesses do País, como se viu nos casos típicos de xifopagia — passe o termo — com António Ferro, ex-diretor da Propaganda, Santos Costa, ex-ministro da Defesa, e agora se está verificando com uma série de ministros reacionários que, aflito, chamou ao poder, a despeito de já odiados ou desprezados pelo povo.
Em terceiro lugar, no seu terrível misoneísmo que, a priori, o leva a odiar tudo o que ofereça aspeto de não ortodoxo. Assim, ainda usa botas (repito botas e não sapatos), salientando mais a deformação dos pés, isto quando o inestético tipo de calçado se reserva quase só para as tropas em serviço de campanha.
Analogamente, vagueia com antolhos no cérebro, fechando-o hermeticamente à entrada de ares novos.
Entre os sintomas claros desse fedor a miasma, bolor, botas e talvez ceroulas de atilhos, figura a sua conhecida falta de simpatia pela aviação civil.
Como Gandhi, ele pensa que a velocidade é o mal do mundo… Esse espírito de horror camponês pela vida moderna repercutir-se-ia em toda a sua ação política, conduzindo-
-a, quando desaparecer, por deposição ou morte, legar à oposição um país de espírito medieval, dilacerado por ódios quase justos perante a bestialidade de repressão a que está sujeito, e profundamente estupidificado por sistemática adulação do mandarim.
(Aprèsmoi le déluge, ou quem cá ficar que se avenha).
Ora eu poderia renegar toda a obra de Salazar, afirmar não dispor de inteligência, ou como é corrente e infame em política, duvidosamente dizer que se locupletou com os dinheiros da Nação. Nunca o fiz, nem o faço agora. E não o faço porque, ao contrário, continuo pensando, mesmo após revisão, que convinha e conveio a obra por ele realizada no início, dada a desordem financeira aqui demonstrada de forma inequívoca.
Como penso também que dispõe de substância no cérebro. Até demais, pois reduziu, sub-reptícia e lentamente, à escravidão um país de bravos. Simplesmente, tal como a donzela acima, o que é bom em 1929 pode passar a ser mau em 1949 e péssimo em 1959.
Ora, se la donna è mobile, o político também. Em particular, o ditador pode nascer honesto e tornar-se desonesto. Há o desgaste biológico e político, há a corrupção do poder.”
