A crise de 1929 vista à lupa
É uma radiografia perfeita e ao pormenor da crise da bolsa de 1929 nos EUA, da autoria do jornalista do New York Times, Andrew Ross Sorkin, com base em documentos inéditos de vários arquivos. Mas a obra vai mais longe, acompanhando os terríveis reflexos da crise de 1929 na Alemanha, acabando por dar origem à depressão económica, ao desemprego e à ascensão eleitoral do partido nazi de Hitler. A edição é da Lua de Papel. O Objectivo publica um extracto do livro, precisamente sobre o “problema alemão”
“Na primavera de 1931, mesmo quando as coisas pareciam estar a melhorar, surgiu um novo problema: a Alemanha, falida, ameaçava não satisfazer o pagamento da sua dívida.
Para os Estados Unidos, a Europa fora em tempos uma espécie de rede de segurança. Quando as ações caíam nos Estados Unidos, compradores do outro lado do oceano apareciam a intervir e a adquiri-las, impedindo que o mercado entrasse completamente em colapso. Mas era diabolicamente difícil repor o sistema de benefícios mútuos do comércio, perturbado pelo crash e também pelas tarifas Smoot-Hawley.
A Europa estava em risco de se tornar um peso morto para os interesses norte-americanos.
“Este mundo é cruel”, observou Hoover, com os músculos faciais a tremer, a um funcionário da Casa Branca.
O acordo sobre as reparações de guerra alemãs, que tinha valido tantos elogios a Lamont e às outras luminárias das finanças quando o negociaram no verão de 1929, deixara os grandes bancos de Nova Iorque na dependência da solvência da Alemanha. Menos de dois anos depois, os empréstimos a curto prazo já ultrapassavam os dois mil milhões de dólares. Na Alemanha, o desemprego disparara para 33 por cento.
Em maio, depois de uma tentativa fracassada de resgatar a Alemanha, por parte do Banco de Inglaterra e de outros, o maior banco austríaco foi à falência, desencadeando uma situação de contágio que alastrou rapidamente aos vizinhos. Todos os olhares estavam postos na Alemanha. Se o país deixasse de pagar a dívida, a crise abater-se-ia com todo o seu peso sobre a baixa de Manhattan – e sobre o resto dos Estados Unidos.
Entretanto, Wall Street continuava a pressionar para a reestruturação da dívida da Alemanha, onde mais de uma década de inflação galopante e violência política tinham virado do avesso a vida quotidiana.
“Há alemães adolescentes que não eram nascidos na altura da guerra. Veem hoje que estão sob este jugo pesado pelo qual não foram responsáveis”, afirmou mais tarde Mitchell, alertando para uma “revolta contra a dívida”.
Só os Estados Unidos, na qualidade de credor principal, estavam em posição de agir. Lamont telefonou para a Casa Branca, para falar com Hoover, às 14h30 de 5 de junho e usou os seus lendários poderes de persuasão.
“Sr. Presidente”, afirmou, “tomei a liberdade de lhe telefonar para apresentar uma sugestão que, com toda a probabilidade, vai descartar. Mesmo assim, os meus sócios e eu consideramos que é tão importante que não temos o direito de não lha apresentar. É, enfim, que tome a iniciativa de propor uma pausa nos pagamentos de dívidas de governos internacionais.” A ideia encheu de pavor o presidente. Para milhões de norte-americanos, a experiência da Grande Guerra estava ainda demasiado próxima. Como Hoover bem sabia, não estavam prontos a perdoar ao antigo inimigo. “Politicamente, isso é bastante impossível”, respondeu a Lamont. “Não faz ideia do sentimento geral do país em relação a estas dívidas internacionais.”
Lamont procurou enquadrar o assunto nos termos políticos mais inequívocos, ficando o mais perto que um cavalheiro a sério podia de sugerir que a dívida da Alemanha representava uma ameaça à renomeação do próprio Hoover a presi-dente. “Por estes dias”, afirmou, “ouvem-se muitas pessoas sussurrar em pôr à margem esta administração na Convenção de 1932. Se o senhor apresentasse um plano destes, silenciaria essas vozes de um dia para o outro.” E para a eventualidade de o presidente se preocupar com a possibilidade de Wall Street apresentar como sua esta proposta, Lamont deixou-lhe uma garantia final: “Uma última coisa, senhor presidente: se, por acaso, alguma coisa resultar desta sugestão, gostaríamos de ser esquecidos neste assunto. O plano é do senhor e de mais ninguém.”
Em privado, Hoover tinha andado a estudar obcecadamente uma moratória no pagamento da dívida, pensando pela sua cabeça na melhor maneira de lidar com o assunto. Este sempre fora, aliás, o seu modo preferido de trabalhar. Nas questões que considerava mais sensíveis, mantinha os conselhos exteriores num mínimo. Quando um plano em relação à dívida começou a ganhar forma no seu cérebro, confidenciou a um assessor: “É a declaração mais ousada que alguma vez pensei fazer.”
Ao fim de semanas de uma indecisão dramática e de ter recebido um pedido direto de ajuda do presidente da Alemanha, Hoover expôs o seu plano a trinta membros do Congresso, para testar as águas, e a seguir convocou uma conferência de imprensa para sábado dia 20, onde o apresentou à imprensa.
“O governo norte-americano”, leu, cuidadosamente, “propõe o adiamento por um ano de todos os pagamentos de dívida intergovernamentais, reparações e dívidas de ajuda.”
Era, por fim, o gesto ousado e afirmativo que muitos tinham aguardado de Hoover. “A impressão que está a criar é a de um homem mudado”, escreveu o New York Times, “de uma máquina a vapor cheia de energia, decidida a correr rapidamente para o destino a que se dirige.”
