Carne de vaca portuguesa melhor contra a melancolia
Robert Burton, pensador britânico nascido em 1577, autor de Anatomia da Melancolia, aborda as causas deste estado em espírito em diferentes perspectivas, uma delas a alimentação.
No livro, Burton faz, por exemplo, um resumo exaustivo das várias teorias sobre as carnes, causadoras de melancolia. A carne de vaca portuguesa é, porém, uma exceção, segundo Aubanus e Sabellico, autores alemães do século XV.
O Objectivo publica extractos da obra, Anatomia da Melancolia (editora Quetzal, 2014)
“A carne de vaca, uma carne forte e suculenta (fria em primeiro grau, seca em segundo, diz Galeno, lib. 3, cap. I, de alim. fac.) é condenada por ele e por todos os autores posteriores porque engendra um sangue melancólico denso. É boa para aqueles que estão saudáveis e são de constituição forte, para os trabalhadores, se disposta de maneira adequada: salgada, jovem, de boi (pois todas as carnes castradas de qualquer espécie são tidas por melhores), ou se é velha, é preferível para os que estão exaustos de trabalho. Aubanus e Sabellico recomendam a carne de vaca portuguesa por ser a mais saborosa, a melhor e a de mais fácil digestão, nós recomendamos a nossa. Mas devemos recusá-las todas por serem inadequadas para aqueles que têm uma vida descansada, já de si inclinados para a melancolia, ou de compleição seca; Tales (pensa Galeno) de facili melancholicis aegritudinibus capiuntur».
A carne de porco é de todas as carnes a mais nutritiva devido à sua própria natureza, mas totalmente inadequada para aqueles que vivem descansadamente, os que são de alguma maneira doentes de corpo e alma. É demasiado húmida, cheia de humores, e portanto noxia delicatis, diz Savonarola, ex earum usu ut dubitetur an febris quartana generetur: má para os estômagos delicados, uma vez que o seu uso frequente pode causar febres quartãs.
Savonarola desaconselha a carne de cabra, o mesmo fazendo Bruerinus, lib. 13, cap. 19, que lhe chama animal sujo e pestilento, e, portanto, supõe que produz uma substância fétida e suja. Contudo, Isaac, Bruerinus e Galeno, lib. I, cap. I, de alimentorum facultatibus, aceitam o cabrito (que é jovem e tenro).
O cervo velho e vermelho tem má fama: produz um nutrimento espesso: é uma carne forte e áspera, parecida com a de cavalo. Embora seja comida nalguns países, como os tártaros e os da China, Galeno condena essa prática. Os potros jovens são comidos em Espanha tão amiúde como o cervo vermelho, e usam essas carnes para aprovisionar os navios deles, especialmente nas imediações de Málaga. Mas essas carnes requerem uma cocção ou ebulição longa para as tornar capazes, de modo que nem todas servem.
Todo o veado é melancólico e produz mau sangue. É uma carne agradável: muito apreciada entre nós (porque há mais parques em Inglaterra que em toda a Europa), usada nas nossas festividades solenes. É melhor caçado do que outra maneira, e bem cozinhado; mas em geral a carne é má, devendo ser usada poucas vezes.
A lebre, uma carne negra, melancólica e de difícil digestão, engendra incubus, se comida com frequência, e causa sonhos pavorosos, como a de veado. Foi condenada por um júri de médicos. Mizauld e outros dizem que a lebre tem uma carne alegre e que faz bem, como testemunha o epigrama de Marcial a Gelia; mas isto é per accidens, devido ao bom entretenimento que a sua caça proporciona, a agradável companhia e a boa conversa que se tem habitualmente quando se está a comê-la, e não deve entender-se o assunto de outro modo.
Os coelhos são da mesma natureza que as lebres. Magninus compara-os à vaca, ao porco e à cabra, Reg. Sanit. Part. 3, cap. 17; contudo, todos concordam que os coelhos jovens são bons.
Em geral, todas estas carnes, porque são de difícil digestão, causam melancolia. Areteu, lib. 7, cap. 5, inclui a cabeça e as patas, tripas, a mioleira, as entranhas, o tutano, a gordura, o sangue, as peles e as partes internas, como o coração, os pulmões, o figado, o baço, etc. Isaac, lib. 2, part. 3, Magninus, part. 3, cap. 17, Bruerinus, lib. 12, Savonarola, rub. 32, tract. 2, rejeitam tudo isto”.
