Quando Portugal tinha 860 toneladas de ouro
Em menos de 40 anos, de 1937 a 1973, Portugal passou de 71 toneladas de ouro para 860 toneladas, segundo as contas do economista Abel Mateus no seu livro Economia Portuguesa desde 1910 (Editora Verbo). Mateus explica ainda como se deu este “milagre”.
O Objectivo publica um extracto da obra:
“Portugal iniciou, em 1931, quando regressou ao sistema padrão-ouro, a reconstituição das suas reservas de ouro e divisas. Contudo, é especialmente no período da I Guerra e do pós-guerra que inicia um processo de acumulação de reservas de ouro e divisas que iriam colocar o País entre os níveis per capita mais elevados do mundo.
Era vulgar dizer-se que este tinha constituído um dos mais importantes ‘legados de Salazar’. O stock de ouro no Banco de Portugal subiu de 71 toneladas, em 1937, para 860, em 1973. Neste período, haverá que distinguir três fases distintas: a primeira, que vai de 1937 a 1946, em que se acumulam fortes reservas devido à expansão das exportações; a segunda, que vai de 1946 a 1953, em que se dá uma diminuição e depois um retorno aos níveis do pós-guerra, devido aos enormes défices da balança comercial do período 1947-49; e uma terceira fase, desde 1953 a 1973, em que o volume de ouro volta a duplicar, atingindo as referidas 860 toneladas, e as reservas totais ascendem a cerca de 4,5 biliões de dólares, ou 111 milhões de contos. Este montante era equivalente a cerca de 14 meses de importações de bens e serviços, com o ouro avaliado a preços de mercado, o que correspondia a um valor muito elevado, por qualquer norma internacional
Como foi possível acumular este volume de reservas? (…) os elevados excedentes da balança comercial, que chegaram a atingir 12% do PIB em 1942, estiveram por trás da forte acumulação de reservas no período da II Guerra Mundial. Se adicionarmos os excedentes acumulados da balança comercial entre 1937 e 1945 e as remessas de emigrantes, constatamos que entraram cerca de 10,4 miIhões de contos, valor inferior aos 16,5 milhões de aumento das reservas do Banco de Portugal no mesmo período. Esta diferença terá sido devida a entradas de capitais, que, segundo vários economistas, resultaram da passagem de refugiados pelo País, bem como a uma balança de serviços que poderá ter sido mais excedentária que a tendência.
A segunda fase de forte acumulação de reservas deu-se entre 1966 1973, e correspondeu a cerca de 27 milhões de contos. Esta subida deveu-se a uma acumulação de excedentes da balança de transações correntes no montante de 33,5 milhões de contos, o qual não contabiliza uma entrada de capitais a médio e longo prazo que, só nos últimos anos, ultrapassou os 3 milhões de contos”.
