Aliados em Guerra, Os Rivais que derrotaram Hitler
É uma compilação de revelações em quase 700 páginas, através de uma exaustiva pesquisa do historiador britânico, Tim Bouverie, em “mais de cem coleções privadas de documentos e de arquivos na Grã-Bretanha e nos EUA”, quando se pensava que estava tudo escrito e dito sobre a II Guerra Mundial. O livro “Aliados em Guerra, Os Rivais que derrotaram Hitler”, recentemente editado, tem a chancela da D. Quixote.
Na ´Operação Impensável` contra a URSS, que chegou a ser planeada por Churchill para ser realizada logo a seguir ao fim da II Guerra Mundial, o objetivo era “impor a vontade dos Estados Unidos e do Império Britânico” à União Soviética.
Em 16 de agosto de 1945, sete meses antes do mais famoso discurso de Churchill em Fulton, no Missouri, EUA, jé Churchill tinha falado na Câmara dos Comuns britânica de uma “cortina de ferro” que dividia o Ocidente europeu da URSS.
O Objectivo publica um extracto da obra:
“Em 4 de maio, Churchill [Winston Churchill, primeiro-ministro britânico] escrevera a Eden [Anthony Eden, ministro dos Negócios Estrangeiros britânico] acerca do receio que tinha de as tropas dos EUA retirarem das linhas de ocupação que foram acordadas, permitindo deste modo que ‘uma vaga de dominação russa avançasse quase 200 quilómetros numa frente com 320 a 650 quilómetros´. Um tal acontecimento, prosseguiu, seria um ´dos mais melancólicos da História´:
‘A fronteira russa iria da extremidade setentrional da Noruega, ao longo da fronteira entre a Suécia e a Finlândia, ao longo do Báltico, até um ponto logo a leste de Lübeck… e a meio caminho através da Áustria… até ao rio Isonzo.
Assim, os territórios sob controlo russo incluiriam as províncias bálticas [sic], toda a Alemanha até à linha de ocupação, toda a Checoslováquia, uma grande parte da Áustria, toda a Jugoslávia, a Hungria, a Roménia, a Bulgária, até chegar à Grécia, na sua atual condição periclitante.’” [informação de Churchill para Eden]
Tendo afirmado a sua recusa em ser enganado em relação a um acordo justo para a Polónia, mesmo que isso significasse ir ao ponto “de quase entrar em guerra com a Rússia”, o primeiro-ministro ordenou aos chefes do Estado-Maior que considerassem a possibilidade de repelir o Exército Vermelho à força. Em 8 de junho, os planeadores apresentaram-lhe a ´Operação Impensável`. O objetivo era ´impor a vontade dos Estados Unidos e do Império Britânico` à União Soviética, relativamente à Polónia e à liberdade da Europa Oriental. Os meios para tal consistiam em quarenta e sete divisões britânicas e norte-americanas, nas Forças Armadas Polacas e, de modo controverso, naquilo que restasse da Wehrmacht [Forças Armadas da Alemanha Nazi].
A proposta era uma ofensiva ao longo de uma linha curva que se estendia de Stettin (Szczecin) a Bydgoszcz, a norte, e de Leipzig a Breslau (Wrocław), a sul. Considerava-se que as forças aéreas combinadas dos britânicos e dos norte-americanos e o comando eram superiores aos equivalentes soviéticos, mas eram vantagens menores. Tal como os planeadores militares observaram, os soviéticos poderiam colocar no terreno 170 divisões contra uma qualquer ofensiva ocidental – uma vantagem numérica de quase quatro para um. Mesmo que as democracias conseguissem alcançar um `rápido sucesso`, não sugeria que os soviéticos se submetessem. Podiam retirar, como tinham feito em 1941, e não havia ‘virtualmente nenhum limite à distância que seria necessário percorrer pelas forças aliadas dentro do território russo, de modo a fazer com que fosse impossível qualquer outra resistência’. Em resumo, os chefes do Estado-Maior concluíram: ‘Estaria além do nosso poder obter uma vitória rápida, mas limitada, e deveríamos mergulhar numa guerra prolongada, com probabilidades pesadas. E estas, além disso, seriam fantasiosas, se os americanos ficassem cansados e indiferentes`. Confrontado com esta realidade – que ele, seguramente, já devia saber -, Churchill recuou, pedindo aos planeadores que considerassem, em vez disso, as medidas necessárias para garantir a segurança das Ilhas Britânicas, se os americanos se retirassem da Europa e os russos avançassem até ao Canal da Mancha. Cinco semanas depois, após o teste bem-sucedido da bomba atómica no deserto de Jornada del Muerto, Truman disse a Estaline, em Potsdam – onde os Aliados se reuniram para debater a administração da Alemanha, as indemnizações e a guerra contra o Japão -, que as democracias tinham desenvolvido ´uma nova arma com uma força especialmente destrutiva` Segundo as memórias de Truman, o líder soviético ficou indiferente – graças à traição de Klaus Fuchs, Nunn May, Morris Cohen e outros, Estaline sabia perfeitamente da existência do Projeto Manhattan -, mas isso não alterava o facto de, nesse momento, os americanos terem a bomba e os russos não. Nessa noite, segundo Zhukov [Gueorgui Zhukov, marechal do exército russo], Estaline enviou um telegrama aos cientistas atómicos soviéticos a dizer-lhes para aumentarem os seus esforços de criação de uma arma russa. Começava a corrida ao armamento que iria definir o relacionamento entre as superpotências ao longo dos quarenta e cinco anos seguintes.
Em Potsdam, os Aliados emitiram uma declaração a exortar os japoneses à rendição incondicional, ou enfrentariam ´destruição total e imediata`. Truman, Stimson [Henry L. Stimson, secretário da Guerra norte-americano] e o recém-nomeado secretário de Estado, James Burnes, estavam decididos a usar a bomba atómica para poupar vidas norte-americanas – os EUA tinham acabado de perder quarenta e nove mil homens em Okinawa – e terminar a guerra no Extremo Oriente antes que os soviéticos pudessem ocupar a Manchúria, o Norte da China e, talvez, a Coreia. Churchill, que deu prontamente o seu consentimento, foi influenciado em particular por esta última consideração. ‘Já não era preciso que os russos entrassem na guerra japonesa’, disse, entusiasmado, a Brooke, ‘o novo explosivo bastava para resolver o assunto`
´Além disso, tínhamos agora nas mãos algo que poderia reequilibrar a nossa relação com os russos. O segredo desse explosivo e o poder para o usar alterariam completamente o equilíbrio diplomático que estava à deriva desde a derrota da Alemanha. Agora, tínhamos uma nova vantagem para restabelecer a nossa posições …. agora, podíamos dizer, ´Se insistirem em fazer isto ou aquilo, bem, podemos simplesmente rebentar com Moscovo, depois com Estalinegrado, Kiev, Kuibyshev, Kharkov, Sebastopol, etc., etc.`” [Diários do Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas britânicas, Marechal de Campo, Alan Francis Brooke]
Apesar de os norte-americanos nunca terem sido assim tão explícitos, não há dúvidas de que o comportamento da União Soviética e o estado cada vez mais tenso das relações entre o Ocidente e a URSS tiveram influência na decisão de utilizar aquilo que Truman chamou de arma ´mais mortífera´ da ´´história do mundo´.
Às 08:15 (locais) de 6 de agosto de 1945, o bombardeiro B-29 Superfortress ´Enola Gay» abriu as portas e largou uma bomba de urânio na cidade de Hiroshima, no Sul do Japão. Morreram imediatamente, pelo menos, setenta mil pessoas, e até ao fim do ano morreriam entre sessenta mil e oitenta mil devido a queimaduras, envenenamento por radiação, choque e outros ferimentos. Três dias depois, não tendo sido obtida qualquer reação por parte de Tóquio, foi largada uma segunda bomba-desta vez, de plutónio – sobre a capital da ilha de Kyushu, Nagasaki. Morreram mais setenta mil civis. Entretanto, o Exército Vermelho tinha invadido a Manchúria, depois de Molotov informar o embaixador japonês em Moscovo de que a URSS revogava o Pacto de Não-Agressão estabelecido entre os dois países no dia 13 de abril de 1941. Foi a última gota.
Sem os soviéticos para agirem como mediadores – uma via que os japoneses tinham tentado explorar desde julho -, os nipónicos perceberam que não tinham esperanças. Em 10 de agosto, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Shigenori Tõgõ, aceitaria a declaração de Potsdam, desde que o papel e o estatuto do imperador fossem protegidos.
A Segunda Guerra Mundial terminou no dia 14 de agosto de 1945.
Houve cenas de alegria e de júbilo em todo o mundo. Tinha chegado finalmente ao seu termo a guerra que tinha matado cerca de setenta e cinco milhões de pessoas e deslocado e mutilado muitos milhões mais.
Mas os Aliados, cujas ações conjuntas tinham feito com que esse momento fosse possível, estavam em contencioso sobre a Polónia e sobre o destino da Europa Oriental e Central; sobre os estreitos da Turquia, a ocupação do irão e o futuro da Asta Oriental, e sobre o financiamento do pós-guerra e a conclusão do programa Lend- Lease. Não tinham desaparecido as possibilidades de cooperação, mas a tendência era claramente de desconfiança crescente, rivalidade imperial e antagonismo ideológico. Políticos e jornalistas dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha falavam abertamente da´inevitabilidade` de uma guerra com a Rússia-ainda que muitos reagissem no sentido de desmentir tais conversas -, ao passo que o New Times de Moscovo alertava os seus leitores de que o advento da bomba atómica era ´um sinal para os reacionários de todo o mundo se movimentarem para concretizarem uma nova cruzada contra a União Soviética,´ Em 11 de julho, Harriman [embaixador norte-americano na União Soviética] avisou que ´em Moscovo, os princípios éticos com os quais a Humanidade se preocupara ao longo de séculos estavam agora subordinados à questão de se saber se os homens, individualmente ou coletivamente, estavam dispostos a aceitar todas as políticas do Kremlin´, e em 16 de agosto – sete meses antes do seu mais famoso discurso em Fulton, no Missouri-, Churchill falou, na Câmara dos Comuns, de uma ´cortina de ferro´ que dividia o continente.”
